23 de maio de 2050

Comece aqui para um breve resumo dos conceitos e ciência

O que acontece quando você deixa um rato macho em uma gaiola com uma fêmea receptiva? 

Naturalmente, ocorrem várias sessões de copulação. Então, chega uma hora em que o macho se cansa daquela fêmea em particular. Mesmo que ela queira mais, ele já teve o bastante e passa a ignorá-la. Contudo, substitua a fêmea original por uma nova e o macho imediatamente revive e se esforça para fertilizá-la. Você pode repetir esse processo com fêmeas novas até que ele esteja completamente exausto. 

Isso é chamado de efeito Coolidge — uma resposta automática para novos parceiros. Curiosamente, homens ejaculam mais espermas móveis e o fazem mais rápido quando veem uma atriz pornográfica inédita. Basicamente, essa poderosa resposta automática para as novidades é o que conduz as pessoas ao vício em pornografia.

Assim como o rato do laboratório, você possui um mecanismo primitivo em seu cérebro insistindo que você fertilize as fêmeas na sua tela (ou insistindo que você seja fertilizada, caso você seja uma mulher). 

Um detalhe interessante é que o efeito Coolidge também ocorre com as fêmeas. Estudos mostram que, quando conveniente, fêmeas não são menos promíscuas que machos.

Circuitos primitivos em seu cérebro governam emoções, desejos, impulsos e tomadas de decisões subconscientes. Foi com o auxílio desses circuitos que o ser humano garantiu sua sobrevivência até os dias de hoje, e eles fazem seu trabalho com tanta eficiência que a evolução não fez questão de mudá-los. Funcionamos de maneira muito similar aos nossos ancestrais, embora nossos cérebros tenham tamanhos maiores. O problema é que não vivemos em um ambiente similar ao dos nossos ancestrais. 

Mais dopamina, por favor

Para você, ratos e todos os mamíferos, o desejo e motivação para buscar sexo surge largamente devido a um neurotransmissor denominado dopamina. A dopamina trabalha na parte primitiva do cérebro — o circuito de recompensa. É nele que experimentamos os desejos e prazeres da vida. Consequentemente, é nele onde residem os vícios.  

No topo de nossa lista humana de recompensas naturais estão comida, sexo, amor, amizade e novidades. Essas são formas naturais de se obter prazer, diferentemente do que se observa no prazer gerado pelas substâncias químicas viciantes e os demais estímulos artificiais. 

O propósito evolucionário da dopamina é lhe motivar a fazer o que serve a seus genes a fim de posteriormente passá-los adiante. Em outras palavras, a dopamina existe para garantir nossa sobrevivência como espécie.

Quanto maior o prazer, mais você quer algo. Sem dopamina, você apenas ignora. Bolo de chocolate e sorvete? Uma grande explosão de neurotransmissores. Salsão? Nem tanto.

O estímulo sexual oferece o maior pico de dopamina natural disponível em seu circuito de recompensa. Desse modo, não é de se espantar que o vício em pornografia seja um problema. Quando você está exposto a esse tipo de conteúdo, seu cérebro está apenas racionalizando que a pornografia é uma coisa boa para os seus genes. Ele vai lhe fornecer prazer por isso e vai querer mais depois, insistindo que você volte ao marasmo, pois é algo "bom" (não é). Tudo para garantir a sua sobrevivência.

Sim, a dopamina pode ser utilizada de maneira incorreta. Um dos apelidos da dopamina é "molécula do vício", porque ela tem um papel central em todos os vícios.

Embora a dopamina seja frequentemente referida como a "molécula do prazer", isso não é tecnicamente apurado. A dopamina está mais relacionada à busca por recompensas, à antecipação e ao desejo de fazer algo. Ela fornece a motivação necessária para conquistar potenciais recompensas ou objetivos a longo prazo.

Apesar de controverso, o prazer causado pelas recompensas finais aparenta surgir do efeito de opioides. De forma simples: dopamina é querer, opioides é gostar.

Como a psicóloga Susan Weinschenk explicou, a dopamina não faz com que as pessoas sintam prazer, mas causa o comportamento de busca. "A dopamina faz com que queiramos, desejemos, busquemos e procuremos", escreveu ela. É o sistema opioide que faz com que alguém sinta prazer. "O sistema de dopamina é mais forte que o sistema opioide", explica ela. "Nós buscamos mais do que estamos satisfeitos". Assim, o vício pode ser pensado como um desejo incontrolável.

Novidade, novidade, mais novidade

As novidades comandam a dopamina. Um novo carro, um filme recém lançado, o último gadget... estamos todos viciados em dopamina. Como acontece com tudo que é novo, alguma hora a emoção desaparece e a dopamina despenca.

É desse jeito que o efeito Coolidge funciona: o circuito de recompensa do rato está liberando cada vez menos dopamina com a atual fêmea, mas produz uma novo pico de dopamina quando a nova fêmea aparece. Soa familiar?


Não surpreendentemente, ratos e humanos não são diferentes quando se trata de respostas para um novo estímulo sexual. Por exemplo, quando pesquisadores australianos mostraram o mesmo filme pornográfico repetidamente para um grupo de indivíduos, o pênis dos indivíduos testados e também os relatos subjetivos revelaram um progressivo declínio na excitação sexual.


Depois de 18 visualizações — quando os sujeitos testados já estavam quase cochilando — pesquisadores introduziram novidades erótica nas exibições seguintes (19 e 20). Não surpreendentemente, houve um aumento na excitação e nos níveis de dopamina. 

Estudos indicam que as mulheres apresentam efeitos similares.

A pornografia é especialmente sedutora para nossos sistemas de recompensa porque a novidade está sempre a um clique de distância. Pode ser um "parceiro" novo, uma cena incomum, um ato sexual estranho ou a imaginação mais bizarra que você tiver. Com múltiplas abas abertas e clicando por horas, você pode, em 10 minutos, ver mais  do que seus ancestrais viram na vida inteira. 

Pesquisas confirmam que antecipação da recompensa e a novidade complementam um ao outro para aumentar a excitação, atuando na via mesolímbica do cérebro. 

A pornografia é o que os cientistas chamam de estímulo supernormal ou superestímulo. Recebem esse nome porque são estímulos exagerados artificiais ou versões exageradas de formas naturais de prazer, as quais equivocadamente entendemos como relevantes para nossa sobrevivência.

Estímulo supernormal


Foi Nikolaas Tinbergen, premiado com o Nobel de Fisiologia ou Medicina em 1973, que há anos cunhou o termo "estímulo supernormal". Ele descobriu que pássaros, borboletas e outros animais poderiam ser enganados de modo a preferirem falsos parceiros e ovos. Pássaros fêmeas, por exemplo, esforçavam-se para sentar nos maculados ovos de plástico de Tinbergen enquanto seus próprios ovos pálidos e manchados pereciam sem importância.


Humanos, assim como pássaros, avaliam o valor de um estímulo através da ativação dos circuitos de recompensa no cérebro. É por isso que a excitação sexual libera grandes níveis de dopamina e opioides — a reprodução é primordial para seus genes.

Com a pornografia virtual, não é só a novidade sexual interminável que provoca nosso sistema de recompensas. A dopamina também é estimulada por outras emoções, as quais proeminentemente ocorrem quando se vê pornografia:

  • Fortes emoções — tais como culpa, nojo, constrangimento, ansiedade e medo.
  • Procuras intermináveis — o sistema de recompensa é frequentemente chamado de "circuito de buscas".
  • Qualquer coisa que viole as expectativas — choques, surpresas ou situações que não imaginávamos.

Muitos desses estados emocionais (ansiedade, vergonha, choque, surpresa) não apenas afetam os níveis de dopamina, mas cada um deles impulsiona hormônios do estresse e neurotransmissores (noradrenalina, adrenalina, cortisol). Esses neurotransmissores associados ao estresse amplificam os já poderosos efeitos da dopamina. Com o passar do tempo, o cérebro de um viciado em pornografia pode confundir sentimentos de ansiedade ou medo com os de excitação sexual. Isso ajuda a explicar porque alguns usuários de pornografia procuram por pornografia chocante ou que provoca ansiedade — eles precisam da ação dos neurotransmissores adicionais para se sentirem estimulados.

A pornografia online é única. Nada se compara às múltiplas abas sexuais que você pode abrir. Você pode manter seus níveis de dopamina absurdamente elevados com o clique de um mouse ou o toque de uma tela. 

O que torna a pornografia online um estímulo único?

É evidente que hoje em dia a pornografia é facilmente acessível e está disponível 24 horas por dia. Isso permite que um usuário tenha acesso a novidades ilimitadas. Pode-se dizer que o modo como a pornografia virtual é normalmente usada mantém a dopamina anormalmente elevada por longos períodos, o que torna o vício um potencial risco. 

Aqueles que concordam com o fato de que o vício em pornografia existe geralmente comparam a pornografia disponível na Internet a drogas viciantes e videogames. Apesar dos vícios comportamentais e substanciais das drogas e dos jogos compartilharem certas mudanças cerebrais, tais analogias falham em mostrar o óbvio: nós temos circuitos cerebrais especialmente projetados para o sexo e para a reprodução, e esses circuitos são, portanto, particularmente vulneráveis ao consumo de pornografia.


Já que o orgasmo é a mais poderosa forma natural de se obter prazer e a reprodução está no topo das tarefas de nossos genes, nosso cérebro tenta se lembrar de tudo que que esteja relacionado a essa poderosa experiência. Ele faz isso por meio de associações aos eventos que caracterizam o clímax. Exemplos desses eventos não faltam: voyeurismo, a busca por novidades, fetiches, múltiplas atrizes pornôs, múltiplas abas, atos estranhos, choque, surpresa, ansiedade etc.

Outras qualidades que separam o pornô de internet de outras substâncias e comportamentos potencialmente viciantes:

1. Estudos revelaram que a pornografia em forma de vídeo é muito mais excitante que a pornografia estática.

2. Durante uma sessão de masturbação, uma mudança súbita no gênero da pornografia que está sendo vista pode impedir a queda natural dos níveis de dopamina, elevando-os novamente, contribuindo para uma maior excitação e tornando o usuário mais propenso ao vício.

3. Diferentemente de fotos de pessoas nuas, vídeos substituem sua imaginação e podem moldar seus gostos sexuais (especialmente em adolescentes).

4. A pornografia é armazenada detalhadamente no seu cérebro, o que lhe permite relembrá-la sempre que quiser uma dose dela. 

5. Diferentemente da comida e das drogas, para os quais há um limite de consumo, não existem limites físicos para o consumo de pornografia. O limite, teoricamente, só ocorre quando se chega a um orgasmo, que é seguido por alterações hormonais responsáveis por dar início ao período refratário. Mesmo assim, o usuário pode continuar procurando por novidades e ficar excitado novamente. 

6. No caso da comida e das drogas, um indivíduo só pode intensificar seu vício ao consumir mais. A pornografia, por outro lado, permite que um viciado também deteriore cada vez mais sua condição por meio das novidades e gêneros intermináveis, independentemente do tempo que ele passa na frente de uma tela.

7. A idade em que um usuário começa a assistir pornografia é um fator crucial. O cérebro de um adolescente está em seu pico de produção de dopamina e desenvolvendo sua plasticidade, o que o torna altamente suscetível ao vício e a um condicionamento sexual equivocado.

Estímulos sexuais e drogas viciantes compartilham mecanismos cerebrais semelhantes 

Os estímulos sexuais e as drogas viciantes ativam exatamente as mesmas células nervosas do sistema de recompensa. 

Viciados em heroína frequentemente afirmam que usar a droga é "como um orgasmo". De fato, a ejaculação imita os efeitos do vício em heroína no circuito de recompensa. Isso não significa que sexo é ruim. Isso é somente um indício de que podemos nos viciar em sexo ou, na pior das hipóteses, em pornografia.

Tanto o sexo quanto o uso de drogas leva a um acúmulo de DeltaFosB, uma proteína que ativa os genes envolvidos com vício. Altos níveis de DeltaFosB condicionam o cérebro a desejar qualquer coisa e a manter hábitos. Esses hábitos podem ser saudáveis, como frequentar a academia, por exemplo, ou pouco saudáveis, tais como o consumo de drogas e pornografia. 


A afirmação de Klein foi testada e derrubada há muito tempo, num estudo de 2000 do fMRI. O estudo teve grupos de controle que consistiam em viciados em cocaína e pessoas saudáveis assistindo a filmes de indivíduos usando cocaína, filmes contendo cenas da natureza ao ar livre ou filmes pornográficos. O resultado: os viciados em cocaína tiveram praticamente os mesmos padrões de atividade cerebral que a cocaína causa quando viram pornografia ou outras pessoas utilizando ela. Além disso, tanto os viciados como o grupo de controle apresentou os mesmos padrões de atividade cerebral quando confrontados com pornografia. Entretanto, tanto para os viciados como para o grupo de controle, não se observou atividade cerebral similar quando se viu cenas da natureza em comparação com as cenas pornográficas. 

A lição aprendida é a de que as drogas podem ativar neurônios associados ao sexo e desencadear estímulos sem sexo de verdade. Igualmente, a pornografia online pode fazer o mesmo. O pôr do sol não pode. 

(Post em construção. Continua.)

20 de fevereiro de 2018

Duas estratégias para abandonar a pornografia

Em seu livro de 2005, Treating Pornography Addiction, o Dr. Kevin Skinner descreve o que ele chama de “sequência de ativação”. Trata-se de uma sequência de eventos que levam uma pessoa a ver pornografia. Skinner destaca seis etapas nessa sequência — sendo a sétima o ato de ver pornografia.

Conhecer as seis etapas dessa sequência é fundamental para reconhecê-las mais facilmente quando elas ocorrerem. Reconhecer as etapas da sequência, por sua vez, ajuda na luta contra o hábito, visto que possibilita que o usuário interrompa o ciclo através de uma tomada de decisões racional.

seguir, portanto, serão apresentadas as seis etapas da sequência de ativação:

Etapa 1 – O estímulo/gatilho

Um estímulo ou um gatilho é um evento ou uma situação que causa uma reação. Quando falamos de gatilhos relacionados à pornografia ou à masturbação, estamos nos referindo às coisas que dão início à sequência de ativação. Entender nossos gatilhos pode nos ajudar imensamente na luta contra a tentação de ver pornografia.

Alguns gatilhos são óbvios, outros nem tanto. Exemplos de gatilhos óbvios, por exemplo, são os anúncios provocantes que vemos às vezes enquanto navegamos pela Internet ou as diversas músicas populares com letras sexuais que são difundidas na mídia. Na lista dos gatilhos menos óbvios, por outro lado, podemos citar uma frustração por algo que deu errado na vida, ouvir alguém falar mal sobre nós, ser rejeitado por alguém, entre outros.

Qualquer pessoa que deseja se recuperar de um vício em pornografia ou simplesmente largá-la precisa, em primeiro lugar, identificar seus próprios gatilhos. Quais visões, sons ou eventos tendem a estimular nosso cérebro ao ponto de considerar a pornografia uma opção? Estando cientes de nossos gatilhos, permitimos que fiquemos mais vigilantes em relação a estes.

Nessa etapa da sequência de ativação, se um usuário deseja mudar de ideia e interromper o ciclo, é necessário ativar o lado racional do cérebro. Mais especificamente, o córtex pré-frontal. Essa é a parte do cérebro responsável pela tomada de decisões sábias ou imprudentes. É possível ativar o córtex pré-frontal de várias maneiras, mas uma das mais fáceis é identificar o que está acontecendo e falar em voz alta: “Isso é um gatilho”. Fazendo isso, o usuário não é mais um mero participante passivo e impede que seus hábitos “sentem no banco do condutor”, libertando-se do gatilho com facilidade.

Etapa 2 – A resposta emocional

Após o gatilho inicial, gera-se uma resposta emocional para esse gatilho. Pode ser uma sensação de excitação, curiosidade ou antecipação. Pode ser uma emoção bastante intensa — um sentimento ou sensação súbitos — ou pode ser algo que se desenvolve lentamente com o passar do tempo.

Etapa 3 – O primeiro pensamento

Essa etapa, muitas vezes, ocorre em conjunto com as emoções da etapa anterior. Pode ser um pensamento como “Eu quero ver um pouco de pornografia agora”, ou “Ninguém vai saber se eu fizer isso” ou “O que será que eu vou encontrar se eu pesquisar tal palavra ou tal nome?”.

Quando a emoção inicial e o primeiro pensamento aparecem na mente, um usuário que quer interromper o ciclo deve, novamente, ligar o lado racional do cérebro. Deve-se afirmar em voz alta a verdade sobre o que está acontecendo. Um usuário frustrado, por exemplo, diria: “Eu me sinto frustrado com a vida no momento e estou recorrendo à pornografia porque ela faz eu me sentir mais confortável.” 

Seja qual for o cenário, é imprescindível não enganar a si mesmo e identificar o que levou o usuário a considerar a pornografia uma opção.

Etapa 4 – A liberação de substâncias químicas

Se um usuário de pornografia continua progredindo pelas etapas da sequência de ativação sem voltar atrás, o corpo começa a se preparar para ver pornografia, porque é para isso que ele foi treinado nos últimos dias, meses ou anos. O corpo se prepara o clímax, e o cérebro libera neurotransmissores associados à memória, como se estivesse dizendo a si mesmo: “Lembra-se de quando você teve aquele momento de alívio nas últimas cem vezes? É pra lá que temos que ir agora.” Mesmo antes de a pornografia ser de fato consumida, nosso corpo é capaz de antecipar perfeitamente o evento.

Etapa 5 – A linguagem corporal

Uma vez que as substâncias químicas são liberadas no sistema, o corpo começa a mudar. A frequência cardíaca aumenta, as palmas das mãos começam a ficar suadas ou geladas, os olhos dilatam, os músculos ficam tensos e assim por diante.

Se um usuário prosseguiu com a sequência de ativação até esse ponto, essas sensações físicas podem servir como um grande sinal de alerta. O intenso sentimento de “querer ver pornografia” sinaliza ao usuário de que essa é a hora de interromper o ciclo imediatamente. Como sempre, o lado racional do cérebro deve ser utilizado. Dizer a si mesmo que a vontade de ver pornografia se deve às substâncias químicas liberadas pode auxiliar um usuário a tomar a decisão de interromper o ciclo.

Etapa 6 – A batalha mental

A essa altura do campeonato, a decisão de ver pornografia ou não ainda precisa ser tomada, resultando numa espécie de batalha mental na qual inúmeros julgamentos brotam e desaparecem na mente na velocidade da luz.

Podemos pensar, “Ninguém vai saber”, “Essa é a última vez, então eu paro”, “Eu sou livre para fazer o que quiser”, ou “Alguma hora eu vou ceder de qualquer modo, então é melhor eu acabar logo com isso.” Em contrapartida, pensamentos totalmente opostos também podem surgir, tais como “E se a minha namorada descobrir?”, “Minha família ficaria tão decepcionada”, “Há coisas melhores para fazer”, ou “Eu detesto a força que isso tem sobre mim.”

Sejam quais forem os pensamentos vencedores, essa batalha determinará o comportamento final.

Estágio 7 – O comportamento final

Supondo que nada interrompeu o ciclo da sequência de ativação, o comportamento é o consumo de pornografia por parte do usuário.


As duas estratégias cruciais

Quando se trata de impedir o ciclo causado pela sequência de ativação, há duas estratégias indispensáveis que podemos empregar. A primeira é para quando você já se encontrar em alguma etapa da sequência, e a segunda é para evitar dar início à sequência. Ambas as estratégias são extremamente úteis para qualquer pessoa que deseja se afastar da pornografia. 

Sem mais delongas, apresentam-se a seguir as estratégias:

Estratégia 1 – Um cérebro racional

Já foi mencionada no texto a importância de ativar o lado racional do cérebro: falar em voz alta consigo mesmo, não importa em que etapa da sequência de ativação você esteja.

Um motivo pelo qual essa estratégia é tão poderosa é porque você usa sinais verbais para acordar para a realidade e pensar sobre o que está fazendo. Porém, essa estratégia se torna ainda mais poderosa caso você “faça a lição de casa” e se prepare para essas situações com antecedência em vez de supor que saberá resolver os problemas no calor do momento.

Tendo falado com inúmeras pessoas que superaram o vício em pornografia, ofereço a seguir algumas das melhores ideias experimentalmente testadas que já ouvi:

1) Eduque-se. Aprenda o máximo que puder sobre o impacto que a pornografia tem na sua vida: tudo que a pornografia está roubando da sua vida, a maneira como ela afeta seu cérebro, seu corpo e seus relacionamentos — até mesmo os seus relacionamentos mais valiosos. Quanto mais você preencher sua mente com essas informações, mais essas informações virão à cabeça quando você precisar interromper a sequência de ativação.

2) Liste suas motivações positivas e negativas. O que você tem a perder constantemente indo atrás de pornografia? O que isso está te custando? O que poderia te custar? O que pode custar às pessoas que te cercam? Essas são motivações negativas. O que você ganharia se livrando da pornografia? Como sua vida melhoraria? Que tipo de homem ou mulher você esperaria se tornar? Essas são motivações positivas. Lembre-se das motivações mais importantes em sua opinião e reflita sobre elas quando você se encontrar no meio da sequência de ativação.

3) Liste suas estratégias de escape. Antecipe-se à sequência de ativação e convença-se de que saberá o que fazer quando estiver passando por alguma etapa dela. Levante-se. Ande. Corra. Ligue para alguém. Escreva algo. Saia de casa. Seja quais forem suas estratégias, tenha elas em mente para lidar adequadamente com os momentos de tentação.

4) Quando se encontrar fantasiando sobre algo, não tente se livrar desesperadamente da fantasia. Lide com ela. Isso pode soar contraproducente, mas é prático. Quando uma fantasia é estimulada, nossa mente fica presa numa rotina de antecipação. Os pensamentos se focam no que está por vir ou no que poderíamos estar fazendo. Em vez de permanecer nessa rotina, termine-a: visualize-se progredindo pelas etapas da sequência de ativação, indo em direção a seu computador ou dispositivo, vendo pornografia por horas, masturbando-se e depois se sentindo miserável. Quando imaginamos isso, superamos os sentimentos de antecipação e excitação e acordamos para a realidade, dando origem a um melhor estado mental para pensar racionalmente.

5) Pense sobre sexo. O autor australiano Frank Sheed escreveu que o homem moderno quase nunca pensa sobre sexo. Ele pode sonhar sobre sexo, fazer piadas sobre sexo, escrever canções sobre sexo — mas ele nunca pensa sobre o sexo. Qual é a natureza do sexo? Qual é sua função? É apenas um mero jeito de aliviar a tensão ocasionalmente? Ou será que a biologia reserva ao sexo uma função mais profunda? Quando olhamos para a maneira como o cérebro humano é moldado durante seu desenvolvimento e a maneira como nossos órgãos sexuais são projetados, não é difícil perceber que o sexo é tanto uma abertura para uma nova vida como uma oportunidade para criar vínculos com outro ser humano. No meio de uma sequência de ativação, nunca é demais lembrar-se de que nossa sexualidade não foi designada para um prazer egoísta ou para alimentar fantasias pregadas por obras como 50 Tons de Cinza

Estratégia 2 – Uma mudança de hábitos

Idealmente, a melhor maneira de escapar da pornografia é nunca dar início à sequência de ativação antes de mais nada. Isso significa, em outras palavras, evitar o maior número possível de gatilhos.

Dito isso, é importante salientar que ninguém pode evitar todos os potenciais gatilhos. Um de seus gatilhos pode ser a frustração, e você certamente enfrentará situações potencialmente frustrantes na vida. Caso seu gatilho seja algum anúncio na Internet ou na televisão, a não ser que você planeje morar numa caverna isolada do mundo, você eventualmente vai se deparar com conteúdo sexual.

Apesar disso, há muitos gatilhos que podem ser evitados. Se, por exemplo, um de seus gatilhos é estar sozinho com o celular com a porta do quarto fechado, você pode mudar isso. Pare de fechar a porta do seu quarto. Saia de casa quando estiver sozinho. Em última instância, você pode até mesmo instalar algum programa ou aplicativo que bloqueie conteúdo sexual e entregar a senha para algum amigo de confiança. Livrar-se do anonimato e do sigilo seria suficiente para lidar com esse problema.

Um dos seus gatilhos é alguma música específica? Pare de ouvi-la. Seu gatilho é algum canal na televisão? Pare de assistir a esse canal ou cancele sua assinatura. Você tem pornografia guardada em algum lugar na sua casa ou no seu computador? Livre-se disso imediatamente.

Isso tudo pode parecer um exagero, mas se a pornografia fosse fácil de abandonar, você provavelmente não estaria lendo isso agora mesmo. Muitas pessoas tentam largar a pornografia sem eliminar todas as portas de entrada para o vício e falham impiedosamente.

Lembre-se desse mantra: “Quando você estiver bem, planeje-se para o pior.” Neste exato momento, se você possui uma determinação para evitar a pornografia, lembre-se de que provavelmente haverá um dia em que sua determinação não estará tão alta, então tenha certeza de que estará bem protegido contra a tentação.

Se você compreendeu a sequência de ativação, busque prevenir os gatilhos e ative o lado racional de seu cérebro caso algum gatilho apareça. Essa simples maneira de agir pode trazer resultados satisfatórios ao custo da disciplina e dos esforços do usuário. 

Por último, quando você estiver fazendo seus planos para abandonar a pornografia, é importante definir objetivos alcançáveis. Com isso quer-se dizer que não adianta prometer que “nunca mais vai ver pornografia”. Um dia de cada vez é a regra a ser seguida. Só assim a liberdade pode ser plenamente obtida. A liberdade não é um destino final, mas sim algo que construímos diariamente. Visualizar-se liberto da pornografia como um destino final quase que certamente trará somente decepções. Portanto, seu objetivo hoje não deve ser “nunca mais ver pornografia”. Em vez disso, seu objetivo deve ser tomar a decisão de não ver pornografia hoje e viver um dia de cada vez. Com o passar do tempo, o conjunto de escolhas e decisões que você tomar moldará o seu sucesso.

A liberdade é possível

Consumir pornografia não leva a mais sexo. Consumir pornografia leva somente a mais pornografia. Assim como comer no McDonald’s todos os dias vai lhe acostumar a um tipo de alimento que, apesar de ter um gosto bom, essencialmente não é comida, a pornografia condiciona seu consumidor a ficar satisfeito com a exibição de um sexo extremo e artificial em vez de apresentar o que realmente se configuraria como uma relação sexual de verdade.

A pornografia promete a liberdade, mas acaba nos escravizando. Ela promete excitação, mas acaba sendo chata no final das contas. Ela nos promete entretenimento “adulto”, mas nos faz parecer um bando de juvenis. Ela promete até mesmo intimidade, mas não cria nada além de isolamento.

A boa notícia é que a liberdade é possível e algo muito melhor do que isso espera por você do outro lado. Livre-se da pornografia enquanto ainda há tempo ;)


(Texto baseado no Capítulo 24 do livro The Porn Myth: Exposing the Reality Behind the Fantasy of Pornography. Matt Fradd, 2017)

18 de dezembro de 2017

Disfunção erétil induzida pela pornografia

Você é um usuário frequente de pornografia e possui alguma forma de disfunção erétil? Caso a resposta seja positiva, saiba que pode haver uma conexão entre os dois.

Muitas pessoas não conseguem acreditar que a pornografia seja capaz de causar disfunções sexuais — até o momento em que param de utilizá-la e se recuperam de suas disfunções completamente. Em vez de reconhecerem tal fato, essas pessoas apenas assumem que as disfunções são causadas por ansiedade, baixos níveis de testosterona, fatores advindos de estilos de vida tais como fumar ou seguir uma dieta pobre, ou até mesmo colocam a culpa nos seus parceiros.

Se você tem menos de 40 anos, não toma remédios específicos e não possui nenhuma condição médica ou psicológica séria, é praticamente certo que sua disfunção erétil é resultado do uso compulsivo de pornografia ou de uma ansiedade de desempenho — ou de uma combinação dos dois.

Será que minha disfunção erétil tem a ver com o uso de pornografia?

O primeiro conselho que pode ser oferecido é consultar um bom médico para descartar qualquer anormalidade médica como causa de sua disfunção erétil. Se você já fez isso, um simples teste pode ser realizado para distinguir uma disfunção erétil causada pela pornografia de uma disfunção erétil causada por ansiedade de desempenho:

  1. Em uma ocasião oportuna, masturbe-se com o auxílio de pornografia ou fantasias pornográficas.
  2. Em outra ocasião, masturbe-se sem pornografia e sem fantasias pornográficas. Tente chegar ao orgasmo apenas com sensações, emulando a velocidade e a pressão que você experimentaria durante um ato sexual.

Compare uma ocasião com a outra. Analise, nos dois casos, a qualidade de sua ereção e o tempo que levou para ejacular (se você conseguiu). Um homem saudável não deve ter problemas para manter uma ereção completa e se masturbar sem utilizar a pornografia ou suas fantasias.

  • Se você teve uma forte ereção na ocasião 1, mas sofreu de disfunção erétil na ocasião 2, você provavelmente sofre de disfunção erétil induzida pela pornografia (PIED).
  • Se você conseguiu manter uma ereção consistente na ocasião 2, mas possui dificuldades com parceiros sexuais, você provavelmente sofre de ansiedade de desempenho.
  • Se você teve problemas para manter a ereção em ambas as ocasiões, você pode ter uma severa disfunção erétil induzida pela pornografia, ou até mesmo sofrer de alguma anormalidade. Em caso de dúvida, ressalta-se a opção de consultar um profissional.

Após o teste, caso você suspeite de um possível problema ocasionado pela pornografia, recomenda-se parar de utilizá-la. Recomenda-se também eliminar a masturbação, pois esta pode levar um usuário de volta ao caminho da pornografia com certa facilidade, além de não se tratar de um hábito desejável.


O uso de pornografia pode causar disfunções eréteis; a masturbação excessiva ou a exaustão sexual não

A pornografia e as constantes novidades sexuais que ela proporciona são a causa das disfunções eréteis induzidas pela pornografia. A ejaculação excessiva e exaustão sexual não são.

Urologistas concordam que a masturbação não é capaz de causar disfunções eréteis crônicas em homens jovens e saudáveis, a não ser que sejam empregadas técnicas específicas e profundas de masturbação. Outro mito é que a masturbação e o orgasmo afetam os níveis de testosterona levando a uma exaustão sexual. No entanto, toda a evidência existente sobre o assunto sugere que a disfunção erétil induzida pela pornografia não tem nada a ver com os níveis de testosterona de um indivíduo. Além disso, não há correlação entre a quantidade de orgasmos e os níveis de testosterona de um indivíduo.

Por outro lado, é possível que a masturbação e o orgasmo possam ter um papel indireto na disfunção erétil induzida pela pornografia. A ejaculação frequente em animais leva a diversas alterações cerebrais que inibem a dopamina e, portanto, a libido por alguns dias. Sob circunstâncias normais, a saciedade sexual (que é diferente em cada espécie) leva os machos a deixarem de lado as atividades sexuais por um período de tempo. Entretanto, observa-se que usuários de pornografia sexualmente saciados podem passar por cima desses mecanismos inibitórios passando mais tempo vendo pornografia ou progredindo para novos gêneros pornográficos.  Usar a pornografia para enganar os sinais emitidos por esses mecanismos inibitórios pode levar a uma dessensiblização, ou eventualmente à acumulação de DeltaFosB, resultando em mudanças epigenéticas. Sem as iscas providas pela pornografia, quantas pessoas não deixariam as atividades sexuais de lado por um tempo?

Conheço um homem que desenvolveu disfunção erétil apenas vendo pornografia: a programação dele era ver pornografia todos os dias, mas se masturbar apenas a cada dez dias. Outros desenvolveram disfunções eréteis praticando edging todos os dias, mas ejaculando apenas uma vez em intervalos de meses.

A pornografia, com ou sem a estimulação do pênis, mantém os níveis de dopamina altos. O uso contínuo de pornografia (e não a masturbação exatamente) é o que causa a tolerância e a progressão para gêneros mais estimulantes. Como consequência, surgem as disfunções sexuais.

Observemos o relato de um rapaz se comparando a seu amigo:

“Meu amigo se masturba de 10 a 15 vezes por dia. Não estou exagerando. Ele realmente tem um vício, mas ele acha que é normal. Ele também não possui acesso à Internet, então ele nunca vê pornografia. E ele nunca teve problemas para manter suas ereções. Por outro lado, não consigo me lembrar de qual foi a última vez que me masturbei sem a ajuda da pornografia. Mas eu me masturbo apenas de 4 a 5 vezes por semana. E eu tenho sérios problemas para manter minhas ereções. A princípio, pensei que era culpa do nervosismo, mas depois de ficar mais acostumado ao sexo, eu sinceramente achei ele bem chato e entediante.”

Precisamente, você não precisa ver pornografia para adquirir uma disfunção erétil:

“Eu sei que eu fiquei tão acostumado às garotas virtuais e à masturbação que as garotas de verdade com as quais interagi na cama apenas se livraram de mim e eu não consegui ter um bom desempenho. Eu não estou nem falando de pornografia, eu não uso pornografia, mas eu olho fotos de mulheres vestidas online. Assim como muitas pessoas aqui, eu tive recaídas diversas vezes. Eu pessoalmente penso que tem que ser tudo ou nada, sem brechas para sequer pequenas coisas. Você pode até não ter recaídas se você começar a ver fotos de garotas na Internet, mas tenho certeza de que isso atrasa o processo de reboot. Eu pensei o mesmo, que se eu apenas olhasse um pouco de vez em quando eu seria cumulativamente curado, mas isso não aconteceu.

Nos últimos 20 anos, eu me masturbei em média mais de uma vez por dia. Eu nunca usei pornografia. Ainda assim, eu experimentei todos os sintomas de disfunções eréteis que costumam aparecer nesse caso.”

O problema não é o seu pênis, então o Viagra não lidará de maneira eficaz com esse problema, ainda que eventualmente o resolva de maneira temporária. A solução para a disfunção erétil induzida pela pornografia é o processo de reboot — dar um reboot no cérebro. Uma explicação do que está acontecendo de fato pode ser encontrada neste excerto do livro The Brain That Changes Itself, do psiquiatra Norman Doidge:

“Durante a década de 1990, quando a Internet estava em rápido crescimento e a pornografia estava explodindo, eu tratei ou forneci assistência a vários homens que vinham sempre com a mesma história. Eles relatavam uma dificuldade enorme para ficarem excitados com seus parceiros sexuais, esposas ou namoradas, embora eles ainda as considerassem atraentes. Quando perguntei se esse fenômeno tinha qualquer relação com o uso de pornografia, eles respondiam que o material pornográfico inicialmente os ajudava a ficarem excitados durante o sexo, porém, com o passar do tempo, o efeito foi o oposto. Então, em vez de usarem seus sentidos para aproveitar o tempo na cama com seus parceiros, fazer amor tornou-se uma tarefa artificial que requeria fantasiar que o sexo era, na verdade, um roteiro pornográfico.”

Ultimamente, temos visto também mulheres relatando problemas sexuais induzidos pela pornografia:

“Eu sou mulher e costumava ver pornografia o tempo todo. Principalmente porqu meu namorado não conseguia ficar excitado sem ver pornografia primeiro. Então, eu via com ele. Por um bom tempo, eu não conseguia ficar excitada sem ver pornografia. Depois, eu não conseguia ficar excitada nem mesmo com pornografia e eu só conseguia ter orgasmos me masturbando, mas não fazendo sexo. Eu conversei com amigas sobre isso e algumas delas não conseguiam ter orgasmos fazendo sexo, mas elas conseguem vendo pornografia. Então, isso não afeta apenas os homens, mas as mulheres também.”


O que está acontecendo no cérebro para causar uma disfunção erétil induzida pela pornografia?

Três mecanismos parecem estar envolvidos no aparecimento de uma disfunção erétil induzida pela pornografia:

  • Condicionamento sexual (provavelmente ocorre com todos que têm disfunções induzidas pela pornografia);
  • Dessensibilização das estruturas do sistema de recompensas do cérebro (isto é, o núcleo accumbens e a área tegmental ventral).
  • Alterações nas regiões do hipotálamo que controlam as ereções (área pré-óptica, núcleo paraventricular).
Vamos avaliar esses três mecanismos:

Condicionamento sexual

O uso frequente de pornografia condiciona a sua excitação sexual a tudo que está associado ao consumo de pornografia. Exemplos de ações associadas ao uso de pornografia são o voyeurismo; constantes pesquisas por material pornográfico; disponibilidade de diversos “parceiros sexuais” na tela; clicar de vídeo em vídeo para manter a excitação sexual ou fetiches induzidos pela pornografia.

Com a pornografia disponível na Internet, você pode controlar sua excitação sexual com o clique de um mouse ou a mexida de um dedo na tela de seu dispositivo. No entanto, esses atos não correspondem à realidade dos encontros com parceiros de verdade. A discrepância entre a masturbação com o uso de pornografia e o sexo de verdade possui um importante papel no aparecimento de disfunções sexuais induzidas pela pornografia. O sexo de verdade inclui o tocar, ser tocado, cheiros, vínculos e interações com a pessoa ao seu lado, tudo isso sem estar na posição de observador. A pornografia, por outro lado, baseia-se no voyeurismo, baseia-se em clicar num mouse, pesquisar, abrir diversas abas, tudo isso enquanto você interage com a própria mão.

Anos de uso de pornografia podem criar uma incompatibilidade entre o que o seu cérebro espera e o que você de fato encontra durante o sexo de verdade. Quando as expectativas não são atendidas, os níveis de dopamina caem e a excitação sexual diminui.

Dessensibilização do circuito de recompensas

Tanto o desejo sexual como as ereções são controlados pela dopamina decorrente do circuito de recompensas do cérebro. Para produzir uma ereção, as células nervosas responsáveis pela produção de dopamina ativam os núcleos sexuais do hipotálamo, que por sua vez ativam os núcleos de ereção na medula espinhal, a qual envia impulsos nervosos à genitália. Com a dessensibilização, o circuito de recompensas se torna o ponto fraco da cadeia de eventos que antecede uma ereção.

A dessensibilização faz com que os níveis de dopamina e opioides diminuam, bem como a quantidade de receptores de dopamina e de opioides. Isso deixa o usuário com menor sensibilidade ao prazer e sedento por atividades e substâncias que originem surtos de dopamina. A dessensibilização se manifesta conforme se observa uma necessidade de estímulos cada vez mais poderosos para atingir o prazer buscado (tolerância). Uma evidência disso é que alguns usuários de pornografia passam mais tempo online, prolongando suas sessões através do edging, procurando vídeos e imagens perfeitas.  A dessensibilização também pode se manifestar na progressão para novos gêneros pornográficos, normalmente mais perturbadores ou estranhos do que os anteriores, o que não é espantoso, visto que emoções tais como o choque, a surpresa e a ansiedade podem alterar drasticamente os níveis de dopamina.

Alterações em regiões do hipotálamo

Esse mecanismo, aparentemente, não ocorre em outros vícios. A perda de ereções noturnas (morning wood) sugere que os núcleos de ereção do hipotálamo sofrem alterações em casos severos de disfunções eréteis induzidas pela pornografia. Suspeita-se que os núcleos sexuais do hipotálamo e os circuitos límbicos dedicados à sexualidade também são afetados em caso de disfunção erétil induzida pela pornografia.

Mais evidências da teoria das alterações no hipotálamo podem ser extrapoladas de um estudo de 2012 realizado em homens com disfunções eréteis psicogênicas. Observou-se que os homens com disfunções eréteis psicogênicas apresentaram atrofia do sistema de recompensa (núcleo accumbens) e nos centros sexuais do hipotálamo.


Como se recuperar de uma disfunção erétil induzida pela pornografia

Primeiramente, é necessário ter em mente que a disfunção erétil induzida pela pornografia deve ser tratada de acordo com seu próprio julgamento. Você é o responsável por determinar o que é correto e mais adequado para você, baseando-se no seu histórico, sintomas e atual situação. Seja flexível na abordagem a ser utilizada e esteja preparado para enfrentar o problema.




Basicamente, as duas principais sugestões para se recuperar de uma disfunção erétil induzida pela pornografia são as seguintes:

1) Elimine a pornografia, seus substitutos, e esqueça toda a pornografia que você já viu. Em outras palavras, elimine todos os estímulos sexuais artificiais.

Quando digo estímulos artificiais, eu me refiro aos vídeos, aos áudios, à literatura erótica, entre outros. Além disso, não são permitidos possíveis substitutos da pornografia tais como ficar apreciando fotos no Facebook ou em sites de relacionamento, anúncios potencialmente estimulantes, vídeos no YouTube etc. Ao realizar essas ações, você estará apenas imitando os comportamentos que emprega durante o consumo de pornografia, quando seu cérebro deseja novidades e estímulos artificiais, o que pode atrapalhar o processo de recuperação. Portanto, evite.

2) Condicione sua excitação sexual a pessoas reais. Isso ajuda todos a se recuperarem, e é ainda mais importante para qualquer jovem que possua pouca experiência sexual. Isso não significa que você precisa fazer sexo para “religar” seu cérebro. Na verdade, conhecer alguém aos poucos é provavelmente o melhor caminho. Encontros, beijos, carinhos, ou o que quer que você possa fazer para condicionar sua excitação sexual a hábitos saudáveis e afetivos que envolvam outra pessoa podem ser úteis na recuperação de uma disfunção erétil induzida pela pornografia.

Observe o discurso de um jovem rapaz que se recuperou de uma disfunção erétil induzida pela pornografia:

“O condicionamento é tão importante quanto evitar a pornografia. Embora pareça que a quantidade de dias longe dos orgasmos é crucial, esse número não é tão importante quanto as pessoas pensam.”

Um erro comum que as pessoas cometem é o de lidar com o processo de reboot como se ele fosse dividido em duas partes separadas: fazer o reboot e depois condicionar o cérebro a outra realidade. Não é assim que funciona. Você pode dar início ao processo de condicionamento quando quiser. Quanto mais você condicionar seu cérebro, mais rápido sua disfunção será curada.

O sexo pode ser benéfico, mas o orgasmo decorrente do ato pode levar a desejos subsequentes (chaser effect). Algumas pessoas sugerem a prática do intercurso sexual sem ejaculação. Se você tem uma disfunção erétil e opta por ter orgasmos regulares, não compare sua situação com a de indivíduos que se abstiveram dos orgasmos.

Devo me masturbar como forma de condicionar minha excitação sexual durante o processo de recuperação?

Em poucas palavras, apenas você é capaz de definir a resposta correta para essa pergunta. Você precisará julgar se a masturbação é uma ferramenta eficaz ou necessária.

Muitos usuários de pornografia, durante o processo de recuperação, eliminam a masturbação e, temporariamente, reduzem a frequência de orgasmos. Outros eliminam totalmente tanto a masturbação como os orgasmos. Outros apenas reduzem a frequência de masturbação. Não há uma solução universal para essa questão. Particularmente, o autor do blog recomenda a total eliminação da masturbação e do orgasmo como forma infalível de tratar o problema, caso você não queira perder tempo tentando buscar um ponto ótimo.

Convém ressaltar que, como a ejaculação é capaz de induzir desejos e impulsos que levam o usuário de volta ao vício (chaser effect), é possível que alguns homens que se masturbam regularmente durante o processo de recuperação fiquem frustrados com a falta de progresso e desistam. Novamente, não se recomenda a prática da masturbação.


O processo de recuperação

A recuperação rumo às ereções saudáveis pode levar de 2 a 6 meses. Em alguns casos, pode levar mais tempo ou menos tempo. O mais importante aqui é ser paciente e aceitar a própria situação, independentemente do tempo necessário.

Jovens que veem pornografia desde que começaram a se masturbar têm requerido períodos maiores de recuperação em comparação com os adultos. Mais informações podem ser encontradas nos seguintes links:

Em outras palavras, adultos que passaram boa parte de suas vidas sem ter contato com a pornografia atual antes de sua explosão costumam se recuperar mais rapidamente. Esses adultos, quando optavam pela masturbação, provavelmente usavam a imaginação e associavam a excitação sexual a pessoas reais. Contrariamente, os jovens usuários de pornografia de hoje em dia passaram anos condicionando a própria excitação sexual a pixels artificiais e afins.

Algumas pessoas que sentiram uma piora na responsividade sexual (sem perceber a verdadeira causa desse fato) têm medo de que evitar a masturbação e a pornografia fará com que suas libidos desapareçam completamente. Isso pode até ser verdade no começo. mas não há o que temer. O processo de regresso às ereções potentes normalmente envolve uma piora na libido antes que ela volte ao seu estado normal. Para os que possuem dúvidas sobre esse assunto, é conveniente ler sobre a flatline.

Pode parecer confuso que exista o desejo de se masturbar em usuários que sofrem de disfunções eréteis induzidas pela pornografia. Isso pode ser explicado por um simples fato: a vontade de se masturbar é similar à vontade de comer alimentos pouco saudáveis quando você é obeso. É um vício. É a dopamina te deixando insatisfeito com o que seria saudável e levando ao consumo do que não é saudável.

Imaginemos a seguinte situação: uma pessoa obesa fez uma grande refeição há duas horas e quer comer de novo. Será que essa pessoa está realmente com fome? Não está. O desejo, nesse caso, não tem como finalidade suprir a fome, mas sim a vontade de experimentar os alimentos pouco saudáveis. É uma questão dopaminérgica. Será que uma pessoa severamente acima do peso, vivendo no tempo de nossos ancestrais e restringindo-se aos alimentos daquela época, comeria tantas calorias? Claro que não. E é exatamente isso o que acontece com os usuários de pornografia que passam pelo processo de reboot. Eles eventualmente descobrem suas verdadeiras libidos, assim como uma pessoa obesa descobriria seus naturais gostos por alimentos caso não existissem alimentos pouco saudáveis.

A disfunção erétil induzida pela pornografia, a impotência copulatória e a ejaculação retardada estão se tornando problemas cada vez mais comuns, provavelmente devido aos extremos estímulos inerentes às atuais formas de pornografia. Apesar disso, é óbvio que essas condições não deveriam ser normais em homens jovens.

Importante: as pessoas frequentemente corrigem seus problemas com disfunções e voltam a fazer sexo com um parceiro. No entanto, a recuperação não significa que você será capaz de voltar a consumir pornografia sem dessensibilizar seu cérebro outra vez.